segunda-feira, 6 de junho de 2016

QUERIDO E SAUDOSO AMIGO ÁTICO VILAS-BOAS DA MOTA

Faleceu, a 26 de março do presente ano, o mais importante estudioso brasileiro da ciganologia, o professor dr. Ático Vilas-Boas da Mota, aos 87 anos, em Macaúbas, Bahia, onde residia e onde havia, também, a Fundação Cultural Prof. Mota. Meu amigo há mais de 30 anos (conheci-o em 1985 como professor da Universidade Federal de Goiás), e foram inúmeros os eventos de que participamos no Rio de Janeiro e em São Paulo sobre ciganos. Seu nome está escrito como membro-fundador do Centro de Estudos Ciganos do Brasil, em 1987, no livro Ciganos: Natureza e cultura de Oswaldo Macedo. Trocávamos cartas e conversas telefônicas, sempre que possível. Que falta me farão suas firmezas espiritual e intelectual! Sobre o Fórum da Unirio (23 a 25 de maio), antecipadamente lhe falei e ditou-me umas palavras, saudando-o, que li na íntegra, no início da minha palestra. Nessa última conversa telefônica, estava tristíssimo, desolado, pois faleceram Alzira, sua esposa, e, em seguida, seu querido irmão caçula a quem muito estimava. Dias depois, telefonei-lhe, e ninguém atendia. Estranhei, pois morava com familiares. Mandei emails. Adiei confirmar o que, intuitivamente, pressentia. Que seus inúmeros artigos, livros (ensaios e de poesia), sempre citados como referências bibliográficas desde meu primeiro livro (1986) até o mais recente (2014), suas entrevistas transcritas em meus livros e artigos, sejam cada vez mais lidos por aqueles que desejam verdadeiramente conhecer a cultura dos ciganos. Sábio, despojado de tolas vaidades, cultíssimo, erudito e simples a um só tempo, generoso, e sobretudo um convicto espiritualista. Exemplo de ser humano -- um homem que os ciganos não podem esquecer. Certamente, Deus, Jesus e os amigos espirituais o acolherão pela sua iluminada trajetória na Terra. Leiam, pesquisem seus inúmeros livros, entre os quais destaco:

1) Ciganos: Antologia de ensaios. Brasília, Thesaurus, 2004.

2) Ciganos: Poemas em trânsito (o primeiro texto literário brasileiro traduzido para o romani). Bucareste, Coresi, 2008.

Deste livro, deixo-lhes o poema "Ciganos I":

Para Aldair Aires (GEN)

Aves em bandos,
cartas do baralho ao vento,
ciganos, envelopes sem endereço.

Paisagem, irmã de dia,
e de noite, doce travesseiro.
Arco-íris de esteiras, pátria menor.

Música: esperanto, recado, abraço,
caixa de ressonância de sol maior.

Quem os vê passar tão rápidos
nunca lhes suspeita os cofres
das lembranças ocultas em arabescos,
sete chaves das arcas milenares.

Crescem-lhes os cabelos,
mil traços em desalinho,
Leem-se-lhes, nos bigodes caídos,
retratos de profetas peregrinos.

Entre o ouvido e a garganta,
um tesouro de sagas remotas,
segue devagar, aos montes.

Cigano que morre:
Incêndio de uma biblioteca
que nunca mais se repete!

(Rio de Janeiro, 1985)

Alguns links sobre o professor Ático:

http://www.portaldemacaubas.com.br/morre-professor-atico-vilas-boas-da-mota/
http://www.portaldemacaubas.com.br/atico-o-mestre-do-arado/
https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81tico_Vilas-Boas_da_Mota
http://gshow.globo.com/Rede-Bahia/Aprovado/noticia/2016/01/documentarista-difunde-obras-do-historiador-atico-vilas-boas.html

Um comentário:

  1. Lembro-me dele, Cristina! Lamento muito! Sua marca ficará impressa nas suas obras e nos corações daqueles que conviveram com ele. Que Deus o acolha através de seus guias espirituais... a jornada continua...

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