segunda-feira, 15 de junho de 2015

CELEBRAÇÃO AO DIA NACIONAL DOS CIGANOS


CELEBRAÇÃO AO DIA NACIONAL DOS CIGANOS

No dia 29 de maio, estive em Brasília, no Auditório do Anexo 2 do MEC - Esplanada dos Ministérios, a convite do Ministério da Educação; da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão; da Diretoria de Políticas para a Educação do Campo, Indígena e para as Relações Étnico-Raciais; e da AMSK/Brasil – Associação Internacional Maylê Sara Kali.

Na primeira parte da programação, com a presença de convidados ciganos e não ciganos, autoridades e membros de instituições representativas da etnia cigana no país, houve a entrega do resultado do Grupo de Trabalho (GT – Cigano) e lançamento oficial de “Ciganos – Documento Orientador para os Sistemas de Ensino”, 2014, o que eu já tinha em mãos, há alguns meses, enviado pelo cigano José Ruiter. Pude lê-lo, avaliá-lo e o considerei da maior importância para os ciganos do Brasil. Desde a década de 1980, conheço alguns relatórios sobre o tema produzidos pelo Centro Studi Zingari (Roma), Études Tsiganes (Paris), algumas associações ciganas espanholas e alemãs, publicados em revistas, e verifico que este Documento brasileiro não deixa nada a desejar a seus congêneres estrangeiros.

À ocasião, o sr. Gabriel Paulo Soledad Nacif, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, o recebeu oficialmente, e sua explanação, bastante firme, por sinal, estabeleceu comprometimento com o conteúdo do referido Documento. Em outro momento do Encontro, cuja mesa, ainda na primeira parte, teve fala de vários ciganos e não ciganos, a sra. Lucimara Cavalcante, do GT-Cigano e representante da AMSK, expôs, detalhadamente, os desafios e acompanhamento da implementação do Documento.

Foi fundamental meu encontro com representantes da AMSK – Elisa Costa, Lucimara, Márcia, entre outras –, por quem fui muito bem recebida, e quero destacar a figura ímpar da sra. Maria Auxiliadora Lopes, coordenadora geral de Educação para as relações étnico-raciais. Os ciganos têm sorte de tê-las todas por perto em seu trabalho incansável e em sua firmeza de propósitos. O Encontro durou de 9 às 17:30h e, nos raros momentos de intervalo, tive a felicidade de rever Anne Kellen, do GT-Cigano, a quem encontro no Rio, e de conhecer e interagir – num valioso intercâmbio cultural e de troca de informações – com importantes lideranças ciganas, tais como o sr. Jucelho Dantas (BA), Zanata Dantas (BA), Daniel Rolim (SP) e Carlos Amaral (MG), aos quais pude presentear com meus mais recentes livros sobre a etnia cigana. Estes também já haviam sido doados à AMSK (para fazerem parte do acervo de sua biblioteca junto, também, a artigos, escritos, relatos, de ciganos e pesquisadores); ao ministro da Educação, sr. Renato Janine Ribeiro, que recebeu os livros das mãos do sr. Gabriel; ao sr. Gabriel Paulo Soledad Nacif; e à sra. Maria Auxiliadora Lopes (posteriormente).

O sr. Igor Shimura e eu (PUC-PR) trocamos livros e tive o prazer de receber o seu excelente Duvelismo – Identidade e pluralidade religiosa cigana, que já li e cuja leitura recomendo. Lamentei não conhecer o cigano Claudio Iovanovitchi (Apreci – Paraná), também do GT-Cigano, de cuja atuação sou admiradora há algum tempo e o destaco no meu livro Os ciganos ainda estão na estrada (Rocco, 2009). Havia inúmeros outros ciganos e não ciganos de igual importância, no evento, e com contribuições valiosas a dar, mas o tempo escasso não me permitiu conhecê-los. Apenas ouvi suas falas e notícias de suas trajetórias e atuações em seus estados.
À tarde, foi dada a palavra a vários participantes, aliás, todos relatos da maior importância, com vistas a um Encaminhamento, posteriormente agrupados e lidos por Márcia, da AMSK. E, no momento em que me foi dada a palavra, pude sugerir uma ideia surgida, ainda nos anos 1980, a partir de uma reunião do Centro de Estudos Ciganos – RJ (1987/1993 – a primeira organização cigana da América Latina), do qual fui uma das fundadoras e participei em toda a sua existência: a necessidade de se inserir – não só nos livros de ciganologia, como já ocorre – nos livros de História do Brasil a participação da etnia cigana na formação da nação brasileira – ciclos do ouro (entradas e bandeiras), do café e da cana-de-açúcar; a vinda dos calons portugueses com a comitiva de D. João VI, em 1808, para o Paço Imperial, onde exerceram os ofícios de cavalariços e ferreiros, festeiros da Corte e, de onde se fizeram meirinhos (os primeiros oficiais de justiça do país foram os ciganos); enunciar ciganos que se destacaram e destacam no cenário político e artístico-cultural do país; e revelar a influência da cultura, arte e religiosidade ciganas no Brasil.

Ao relatar minha ida às escolas particulares do estado do Rio de Janeiro, que vêm adotando meus livros infantojuvenis (Ainda é tempo de sonhos, Imago, 1992, e Qualquer chão leva ao céu – a história do menino e do cigano, Escrita Fina Edições, 2011), mostrei a importância da conversa da autora com professores, alunos e pais, que têm sido o público-alvo destes Encontros, no sentido de esclarecimento, informações e a consequente quebra de estereótipos sobre o povo cigano. Nestes meus 30 anos de convívio com a etnia cigana no Brasil (e, minoritariamente, no exterior), e com sete livros publicados sobre o tema (ensaios, literatura infantojuvenil e contos), os encontros em inúmeros espaços culturais, escolas e universidades do país (e alguns poucos no exterior), bem como as entrevistas para séries sobre ciganos, em programas de tevês e rádios e em jornais e revistas (do Brasil e do exterior), têm sido fundamentais para a real compreensão do que é ser cigano, sua história, organização social, artes, ofícios, religiosidade, língua. A maioria dos encontros teve a presença de ciganos, expondo sobre vários temas referentes à sua etnia, além de realizarem apresentações musicais e literárias. E não deixando perguntas sem respostas, pois todos contêm debates com o público presente.

Como eu, não cigana, há inúmeros outros escritores e escritoras com publicações sobre a etnia cigana em todo o país, além, também, de escritores e escritoras ciganos – o ideal é que houvesse mais – e isso deveria ser considerado institucionalmente (indicação, por exemplo, de livros paradidáticos às instituições públicas de ensino).

Quero destacar, em honra dos antepassados dos ciganos, nomes de pioneiros deste movimento no país, de saudosa memória: Oswaldo Macedo, Cândido da Silva Pires, Paulo Barroso da Costa Verani, Sally Edwirges Esmeralda Liechocki e Zurka Sbano.

E a contribuição valiosíssima, neste sentido, do pesquisador, escritor e professor Ático Vilas-Boas da Mota, do padre italiano Renato Rosso (fundador, no país, da Pastoral de Nômades do Brasil – PNB), ora em Bangladesh, de Valéria Sanchez (fundadora, com Zurka Sbano, do CTC-SP), dos ciganos Antonio Guerreiro de Faria (ex-vice-presidente do CEC), Marcos Rodrigues (ex-presidente do CEC), Mio Vacite (ex-presidente do CEC), das inúmeras famílias ciganas que participaram comigo de eventos no Rio de Janeiro e em inúmeros estados do Brasil e/ou valorizaram meus livros com seus paramiches, depoimentos, poesias, fotos – Nicrites, Jorge, Cavalcante, Calderas, Iancovitch, Martinez, González, Stepanovitch, Stanconvitch, Cristo, Nicoleti, Nicolitch, Marcovitch, Pepino, Orfei, Cunha, Pereira, Guimarães, Macedo, Verani, Castilho, Costite, Rodrigues, Bernal/Vetrovic, Ristich, Martinez Amador, Michel, Witch, Piotrvich, Gómez Savalla, Rosembergen, Sampaio. E a lista é interminável. Também agradecer aos grupos ciganos: Encanto Cigano, Leshjae & Kumpanja, Irmãos Manzano, entre outros; e aos grupos de músicos e artistas não ciganos: Cia. de Dança Denise Tenório, Roda Romani Trio, Eduardo Camenietzki, Tirza Faraht, ao bailarino e coreógrafo Ricardo Samel. Todos têm levado o melhor da música, canto e dança ciganos ao público brasileiro. Sei que há, Brasil afora, inúmeros outros artistas da música e circenses valorosos.

Promover o intercâmbio cultural e educacional, a arte, a reflexão, tudo isso faz parte dos meus ofícios de professora de língua portuguesa e literatura e de escritora. Porque a literatura ama a humanidade, pelo menos na minha concepção de criação literária.

Penso que o convite para a minha ida a Brasília, no dia 29 de maio, foi feito com este objetivo e o aceitei pelo mesmo motivo.

Sei que o caminho do GT-Cigano é árduo, mas desejo as melhores realizações a todos os seus idealizadores, organizadores e integrantes – ciganos e não ciganos irmanados.

Por participar de Encontro tão bem estruturado e que aconteceu na mais perfeita harmonia e comunhão de ideais, só tenho a agradecer a Deus e aos que me convidaram, e desejar a estes a colheita merecida dos melhores frutos.

Rio de Janeiro, 13 de junho de 2015.

Cristina da Costa Pereira.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Cristina, agradeço a referência e confiança em meu trabalho. Também agradeço por ser tão objetiva, tão clara e sincera em tudo o que é possível acessar e conhecer desta etnia. Grato por me enriquecer e me estimular a contribuir em tão árduo e longo caminho de esclarecimentos.

    ResponderExcluir