sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Trechos do livro "Histórias de flamenco e outras cenas ciganas"

"Na verdade, Cristina desvela neste livro muito do universo cigano com o conhecimento de causa de quem, desde 1986, quando foi lançado seu primeiro livro, Povo cigano, conviveu com os ciganos calões e com a romá nas mesas de reunião do Centro de Estudos Ciganos, mais tarde chamado Centro de Tradição Cigana, do qual me tornei, um dia, vice-presidente (...) Com o conhecimento que é fruto da observação direta e do convívio estreito e amigável – a meu ver muito superior ao conhecimento adquirido em qualquer instituição acadêmica – é que a autora mostra o universo distinto que caracteriza a cultura cigana, que é o universo da família" (Trecho extraído do Prefácio escrito pelo cigano Antonio Guerreiro de Faria, músico e professor da Unirio)

"Esta fala é uma homenagem do povo kalom ao seu carinho e à sua dedicação à cultura cigana. Você que não se importou com o preconceito e a discriminação dos não ciganos, sendo você mesma uma não cigana, tornou-se uma das mais respeitadas pesquisadoras do povo cigano, trazendo ao público seu trabalho através dos muitos livros já escritos e os muitos que irá publicar. Posso imaginar como foi dura a sua trajetória até aqui, mas valeu a sua determinação. Até agora, tudo sério e acreditável com relação aos ciganos partiu de você, e não podemos esquecer disso. Você nos tirou do anonimato e nos colocou em evidência." (Marcos Rodrigues, seminômade, ex-presidente do Centro de Estudos Ciganos, comerciante e estudante de psicologia)

"A publicação de livros sobre ciganos é um tesouro para nós, ciganos, porque os escritos vêm documentar, noticiar, esclarecer, elucidar. Também, encantar. No Brasil, muito devemos a Mello Morais Filho, João Dornas Filho e Oliveira China, no passado, que colocaram a nossa gesta nas bibliotecas de alguns estudiosos e aficcionados do assunto. No presente, agradecemos aos livros de Cristina da Costa Pereira, que, juntamente com a criação do Centro de Estudos Ciganos, fizeram com que não figurássemos tão somente nas páginas policiais, aos nos colocarem, principalmente, nos cadernos culturais dos jornais do país." (Oswaldo Macedo, Taro Caló – Fragmento do texto de abertura do evento Arte Cigana no MIS, realizado no Museu da Imagem de Som, na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1992)

"Há muito tempo estávamos querendo fazer com que a população visse também o lado positivo do cigano. Mas não sabíamos como começar. A Cristina foi o pivô de tudo, aprendemos com ela”, conta Mio Vassitch, violinista de 48 anos, presidente do Centro de Estudos Ciganos do Brasil, criado há dois anos. Mio sabe que Cristina teve que cortar um dobrado até conquistar a confiança dos diferentes clãs ciganos. Depois que sentiram que a professora realizava um trabalho honesto, abriram as portas de suas casas (os que já eram sedentários) e as lonas de seus acampamentos (inúmeros ainda em todo o Rio de Janeiro e em diversos estados brasileiros). (Rose Esquenazi, O Dia, agosto de 1989)

"As mais importantes referências de pesquisa da cultura cigana aqui no Brasil são o Oliveira China, o João Dornas Filho; e um parente de Vinicius de Moraes, o historiador Melo Moraes Filho, tem vários trabalhos sobre o cancioneiro e a dança cigana. Ultimamente tem mais gente estudando ciganos com muito carinho, muita atenção. No Rio de Janeiro, tem Cristina da Costa Pereira, com vários trabalhos muito bons também. Mesmo assim, os ciganos ainda formam um povo vítima de preconceito." (Ático Vilas-Boas da Mota, historiador, etnógrafo e ciganólogo)

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A história de Júlia – 1: Júlia vê os ciganos

"Caminhantes por mania ou precisão: e se uma coisa não excluir a outra?", pensava Júlia quando via os ciganos passando; estranha sina de andar, andar, andar – caminhos por onde passam seus sonhos e pensamentos, como numa geografia espiritual.

"Caminho porque preciso", "Porque desconheço fronteiras", "Para ganhar dinheiro", "Para fugir do perigo." Eram tantas as versões! E, como se não bastasse, todos repetiam: “Cão que caminha não morre de fome.”

"É o destino dos homens que vocês leem nas estrelas, no voo dos pássaros e nas linhas da mão?", sempre ela teve vontade de perguntar. Mas, quando enfim se aproximava, eles já tinham desaparecido.

"O ritmo e o som de suas palavras contam muitas histórias", pensava Júlia quando os ciganos chegavam à sua cidade, num burburinho incontido, embalados pela sinfonia de violões, pandeiretas, acordeons e até de um violino, guardado pela tribo como uma joia rara. Eles tinham um jeito encantado de levar as coisas do mundo no fundo de suas almas e, em raríssimos momentos, falavam aos outros sobre elas. Assim mesmo com um enviesado olhar.

"Quem não consegue perceber o lirismo dos ciganos?", murmurava com um sorriso a jovem chamada Júlia. Ninguém, no entanto, lhe dava ouvidos.

(Trecho extraído do livro)

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Caravana cigana

"Não nos deixam descansar/ nem de noite/ nem de dia/ nem ter paz,/ nem aos pés de Cristo/ à beira do altar.” (versos de canto flamenco – autor anônimo).

Antes de ontem

Cinco séculos de orelhas decepadas, cárcere, escravidão e chibatadas por falarmos a chipe [língua, em romani] Os da Igreja proibiam a zambra, o baile dos ciganos. Por delitos, a forca para os homens e bofetadas e expulsão da aldeia para as mulheres. E, quanto às crianças, arrancavam-nas de nós. Outros motivos de condenação: "ser cigano e vagabundo", "ter profissão de cigano" e "haver cigano em grupo com outros ciganos". Pela quiromancia, mortes na fogueira. Por caminharmos sem pouso certo, galés e degredo. E Isabel, a Católica, que no seu reinado castigava brutalmente "os nômades desobedientes", quase foi canonizada!

Ontem

Homens e mulheres levavam seus filhos para se divertirem nos nossos circos, "com aquela gente encantada" como eles diziam: "Os trapezistas, os domadores, globetrotters, os mágicos, as bailarinas, os equilibristas... Como era mesmo o nome do palhaço, mãe?"

Os nazistas, no entanto, marcavam com Z, de zigeuner [palavra alemã que significa cigano], nossa carne, se nos considerassem ciganos puros. Se fôssemos mestiços com predominância de sangue cigano, ZM+; mestiços com predominância de sangue ariano, ZM-; e mestiços, metade cigano, metade ariano, ZM.

Os violinos e violões pararam de soar.

Hoje

Muitos ainda se agradam de nossos cantos e danças, regalando-nos com aplausos entusiasmados, pois a música pode aliviar as dores da alma. Governantes europeus, no entanto, nos confinam em assentamentos equipados com câmeras, sirenes e hora de entrada e saída. Alguns jovens gajões formam quadrilhas de skins, entoando a música do “poder branco”, para abafar nosso canto. Não esperamos ajuda de ninguém. Só contamos com Deula {Deus, em romani].

(Trecho extraído do livro)

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"Cristina da Costa

Reciba mi fraterno saludo en la presentación de su libro sobre El Pueblo Gitano de Brasil (...) Quiero expresarle mi solidaridad y apoyo a los Pueblos Gitanos en el mundo, el derecho a su identidad y autoderminación. Es de grand valor que personas como Ud. expresen la vida y situación de Pueblo Gitano en Brasiul a fin de que se comprenda y valore su cultura y su Pueblo.

Fraternalmente
Paz  y Bien
Adolfo Pérez Esquivel
Bs. As. 25 setiembre 1987."

(Carta de Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, 1980, entregue a Cristina da Costa Pereira, durante lançamento de seu livro Povo Cigano, no Centro Cultural San Martin, na Argentina, em adesão à causa cigana)

(Trecho extraído da contracapa do livro Histórias de flamenco e outras cenas ciganas)

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